sábado, 20 de julho de 2013

Os meus Pés


Após o interregno necessário para uma reflexão profunda, o tema para o meu próximo texto foi finalmente definido. O rufar de tambores que antecede momentos altamente empolgantes e de alguma tensão, tais como este , desta vez não será utilizado porque o tema é mencionado no título, sim…Será um texto sobre os meus pés.

A epifania surgiu, quando o meu irmão, um observador nato, após ouvir da pessoa com quem partilha muito do adn a dizer – este é o terceiro par de chinelos que me faz uma ferida nos pés...  - reagiu com a perspicácia de um - Mano, tens os pés mesmo feios!  – fazendo me imediatamente ficar melhor da dor, ao perceber a metáfora que ele me quis mostrar e que me atropelou na forma daquela situação.

Os meus pés são bastante funcionais, mas não correspondem ao ideal de beleza que tem sido definido e veiculado nos anúncios de cremes para o corpo. Os dedos não são completamente direitos e alguns, os chamados ” médicos ”, podem argumentar que tenho um dedo consideravelmente  maior que os outros nove. No entanto, os meus pés têm o nível de fragilidade de um recém nascido. Fico com pequenas lesões com muita facilidade, a areia da praia faz me confusão, tenho cócegas e faz me impressão que me toquem nos pés em geral. Há muitas pessoas que se passeiam com pés de uma beleza convencional e mais consensual, mas que quase nem se lembram que têm pés, não apresentando nenhum tipo de sensibilidade, mal olham para os pés e só se lembram deles para comparar com alguém que acham que tem os pés feios.

A metáfora que me parece completamente inequívoca na observação do meu irmão, é em relação à maneira como nos relacionamos com  beleza, quando a vivemos de uma perspectiva quase competitiva. Sabendo que será redutor para alguns, em ambos os lados do exemplo, é necessária a generalização para explicar o ponto de vista.

 Os que têm uma beleza menos óbvia acabam por senti-la com mais intensidade, ou na procura de se aproximarem mais dos estereótipos de beleza, pensando comparativamente e avaliando demoradamente as nuances das suas imperfeições. Idealizando a beleza a que aspiram, delimitando os pormenores dessa espetacularidade e valorizando intensamente cada conquista/melhoria nesse campo. Derradeiramente acabam  por se definir pela aproximação do tal aspeto, muitas vezes esquecendo que a verdadeira beleza é o lado individual da que cada um possui. Vivendo no elogio alheio uma experiência marcante em que tiveram um gosto dessa vida a que aspiram.

Neste contexto competitivo ,antagonicamente vivem aqueles cuja beleza é alvo da inveja, todavia para os próprios, essa mesma “beleza” torna se banal. Um elogio a essa beleza é uma constatação óbvia e algo que já foi tão repetido que é necessário um insulto para chamar a atenção de alguns destes seres. A beleza não é um deleite para os que a vivem na primeira pessoa, não ficam a analisar com detalhe esse esplendor. Lembram-se dela quando comparados aos que não a possuem e quando começam a ter medo de estar a perde-la, antes dessa fase tornam-se insensíveis à sua beleza unanime. Da mesma forma que alguém que tem as duas pernas não fica radiante por ter as duas pernas  até ver alguém que não tem esse privilégio ou quando está na iminência de ele próprio deixar de tê-las a funcionar corretamente.

Tornando se a beleza algo que quando vivida segundo as coordenadas dos outras é dolorosa ou indiferente, a grande moral desta história é personificares a alternativa de viveres a tua beleza. Aceitares o belo que há naquilo que és e celebrares a beleza que há no mundo evitando medires te por aí é a forma de conciliar beleza e bem estar.

Por tudo isto, sumariando o acima descrito e citando a resposta que dei ao meu irmão –  Cala-te! Os meus pés são lindos – Aproveitem, os melhores cumprimentos para os vários milhões que congregaram atenções neste texto.

 

 

 

 

 

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